Causou espanto quando Fause Haten surgiu cantando em seu próprio desfile numa das edições da São Paulo Fashion Week. Muitas perguntas surgiram desde então. Por que ele está cantando? Por que ele decidiu trabalhar como ator? Será que o motivo foi ele ter vendido sua empresa? O que ele quer provar?
O estilista, dos mais respeitados do mercado e o preferido de muitas mulheres que o enxergam como o mago do glamour, nunca se preocupou com respostas. Ele simplesmente continuou a criar, compor, cantar. Lançou um disco autoral, seguiu em turnê - o próximo show será na próxima terça-feira (25) - e continuou a desenvolver figurino para teatro e peças para enfeitar gente comum. Haten falou com exclusividade ao E+ sobre o que é luxo e lixo para ele.
Você está fazendo o figurino de Alô Dolly, que estreia em outubro, no Rio de Janeiro. De onde vem sua ligação com o teatro?
Estamos terminando os ensaios e a produção aqui em São Paulo. Estrearemos no Oi Casa Grande, no Rio, dia 12 de outubro, com Marília Pêra e Miguel Falabella estrelando a peça. Sou apaixonado por teatro. Fiz alguns figurinos nos anos 90, e depois, com meu trabalho internacional, acabei parando. Em 2005, quando voltei para o Brasil e decidi estudar teatro, passei a ser muito procurado para fazer figurinos. Na época, recusei muitos, porque queria me concentrar nos estudos e não misturar as coisas. Quando me formei no Célia Helena, em 2009, acabei aceitando fazer o figurino do musical O Médico e o Monstro. Eu queria ver a montagem de um espetáculo por dentro, e foi para mim uma grande experiência. De lá para cá tenho feito muitos figurinos. Neste ano fiz O Mágico de Oz, com direção de Charles Möeller, e agora estamos acabando Alô Dolly, como disse. Meu trabalho como figurinista é instintivo. Gosto de pensar na cena vendo de fora, e também pensando no ator por dentro da cena: como ele se sente dentro do figurino, o que ele precisa dele e como ele se movimenta no palco.
Paralelamente, você mantém uma grife. Quais são exatamente os aspectos técnicos que diferenciam o design de peças para atores e para gente comum?
A minha marca, a FH, caminha super bem. Hoje optamos por ter uma loja em São Paulo. Fechada, com atendimento com hora marcada. No Brasil todo vendemos em lojas multimarcas as linhas feminina, bolsas, acessórios e joias. Nossa linha masculina tem venda exclusiva on line pelo site www.lojafh.com.br. Faço viagens periódicas para visitar as lojas e ter contato com minhas clientes regionais. Dia 27, inclusive, estaremos em São Luís, no Maranhã, fazendo desfile de lançamento da coleção Verão 2012/2013.
Você também tem se dedicado à carreira de cantor, inclusive faz show na semana que vem em São Paulo. Como encara esse tipo de arte?
Cantar é uma paixão que se tornou realidade. Lancei o CD FH com músicas de minha autoria em 2011. O show do dia 25 terá repertório de músicas de amor, dores de amor, vícios de amor. Composições de Roberto Carlos, Cazuza, Reginaldo Rossi e músicas de Alcione, Fábio Jr., Chitãozinho e Xororó rearranjadas por mim e pela minha banda. Contamos, através delas, histórias de amor.
Como pesquisa repertório e quem escreve para você?
Nas músicas autorais eu escrevo com André Cortada. Ele mais como músico. Eu como letrista. Mas, claro, contribuímos um com o outro. Para escolher músicas de outros compositores sigo a intuição. Eu as escolho e levo para nossos encontros semanais no estúdio de ensaio. Às vezes dá super certo. Noutras percebo, cantando, que não são para mim. Há letras que adoro, mas, como disse, não consigo que saiam da minha boca.
A moda deixou de ser desafiante ou a arte lhe deixa mais completo como profissional?
Sou um artista. A moda é uma das minhas expressões, a que mais conheço e onde mais me sinto seguro. Apesar disso, decidi na vida que não vou deixar de experimentar caminhos novos. O desconhecido me rejuvenesce, me joga para frente. A melhor coisa que me aconteceu na vida foi ter voltado a estudar. Passei quatro anos, todas as noites, numa sala de aula aprendendo coisas que não sabia, estudando para melhorar e atingir algo.Antes eu fazia apenas uma roupa e não sabia onde e como seria usada. Hoje no teatro posso desenhar a roupa, pensar nas cores dos personagens juntos, nos cenários, na luz, no que se falará, qual será o gesto etc. Me sentir capaz de cantar, atuar, escrever, compor, pintar, desenhar, sonhar. Me libertar da necessidade de acertar, do medo do erro, da reprovação. Saber que faço coisas porque preciso fazer e que se não fizer um dia vou me arrepender. Tudo isso, para mim, é me assumir como artista no mundo em que vivo.
Walter Rodrigues acabou de encerrar a carreira como estilista. Você pensa nisso?
Fiquei surpreso com a notícia porque faz tempo que não falo com Walter. Ao mesmo tempo, eu o conheço bem e sei que é um grande artista. Se tomou essa decisão foi seguindo seu coração. Tenho certeza que qualquer mudança é sempre entusiasmante. Nunca pensei em abandonar a moda. Tenho acrescentado coisas na minha vida, e isso cada vez me deixa mais feliz e criativo. Quando decidi vender a minha empresa em 2007 minha justificativa era a minha vontade de ser um homem de criação, e não um empresário. Muita coisa aconteceu de lá para cá, mas, de uma forma ou de outra, é isso o que eu sou hoje: um profissional totalmente dedicado à área criativa e muito feliz. A variedade de assuntos com que lido no meu dia, inclusive, me traz mais frescor e leveza em cada uma dessas áreas. Nunca fica chato, sempre é novo.
A moda está numa encruzilhada? Por quê?
Sim, o mundo está numa encruzilhada. O consumo se sobrepõe a valores. Tudo está mudando. Não temos mais certeza de quem somos nesse jogo, e qual nossa função. Realmente 2012 determina o fim do que se conhecia, e o início de um novo modo de viver e pensar. Dentro disso, procuro me manter fiel a não não "ter que" fazer nada, e apenas procurar o que minha alma pede. Afinal, desse "novo mundo" só sabemos que ele virá, mas não tenho ideia de como será. (ri)
O que é luxo?
Nos dias de hoje é o tempo. Toda a riqueza do mundo nada será se não houver tempo para usufruí-la. O tempo do relógio e o tempo interior, o tempo da alma.
O que é lixo?
É o que não quero pra mim. E, acima de tudo, é o que não quero gerar.
Serviço:
O que: Vício com Fause Haten e banda
Onde: Bourbon Street (Rua dos Chanés, 127, 11.5095.6100, São Paulo)
Quando: 25 de setembro, às 22h
Quanto: R$ 35 a R$ 50
Por João Luiz Vieira





















