
Semana que vem minhas aulas recomeçam e aproveitei minha última semana de férias noturnas para assistir ao Curioso Caso de Benjamin Button.
O filme começa mostrando uma criança que nasce velha, com todas as doenças que um corpo pode adquirir no decorrer da vida e que deterioram o corpo até o seu fim, só que logo no nascimento.
Tenho pensado muito em nossa sociedade e em como o envelhecer tem sido encarado.
Parece que se decidiu que o tempo deve ser interrompido.
Existe uma idade ideal, um corpo ideal, uma vida ideal e eu vejo todas as pessoas buscando isso, tentando parar o tempo, fazendo cirurgias, aplicações, dietas, programas em busca da eterna juventude. Obviamente como é impossível parar o tempo, eu as vejo em geral infelizes.
Vejo as pessoas buscando um corpo e não a saúde, buscando uma casa e não um lar.
No filme, logo após o nascimento da criança e a morte da mãe no parto, esse pequeno envelhecido ser é abandonado pelo pai como se fosse uma aberração.
A velhice é abandonada na porta de outra pessoa para que não a olhemos, para fingir que ela não existe.
O filme mostra numa grande metáfora, o tempo passando, a criança crescendo e seu corpo se regenerando. Ela ironicamente é acolhida e cresce num asilo de idosos e vai mostrando paralelamente, as pessoas morrendo e ele crescendo e rejuvenescendo.
Só isso já faria dele um filme para se pensar muito.
Mas claro, existe o amor. O amor da mulher que acolhe essa criança como um filho, dos amigos que se vão, do pai que abandonou o filho, de tantos outros e de uma menina que conheceu um jovem idoso, sabia que ele era diferente e que se apaixonou estranhamente por ele.
A vida os levou a encontros e desencontros até que um dia os uniu. Na metade da vida eles se encontram com idades e corpos iguais e vivem seu amor em plenitude.
Tem juntos uma filha e o desespero toma conta de Benjamim. Ele estava caminhando para o fim da vida... Iria rejuvenescer até voltar a molhar as calças, a desaprender a andar, a falar.
Como ele poderia ser pai dessa menina se seu corpo a cada dia rejuvenesceria?
Como um pai será pai tendo um corpo de irmão, de filho?
Como um filho será filho com um corpo de avô?
Porque é tão difícil nos dias de hoje enfrentar os caminhos da vida?
Porque só damos atenção a um botão de rosa, por que contamos com o seu desabrochar?
Porque só exaltamos o seu esplendor dos primeiros dias de vida? Seu perfume? Sua cor?
Porque não damos atenção às milhares de novas cores que surgem quando começam a amarelar, envelhecer? A seu perfume que fica mais intenso? A suas folhas que enrijecem e retorcem?
Porque não a exaltamos em todas as suas fases? Visto que todas são fases... e não apenas uma delas....
Os cabelos brancos começaram a aparecer muito cedo em mim e é muito estranho lidar com isso. Acho que esse é o único sinal do meu corpo que me causa estranhamento hoje em dia, por que todas as outras mudanças me fazem sentir cada vez melhor.
Costumo dizer que cabelos grisalhos só são lindos nos outros e não em nós mesmos.
E ai penso numa outra grande metáfora do filme... A magia de Hollywood. A maquiagem e a fotografia do filme são inacreditáveis.
Nós vimos os maquiadores se esmerarem a cada dia, a cada filme, em fazer as pessoas envelhecerem e engordarem no cinema, mas como transformaram a Cate Blanchet numa bailarina de 16 anos??? Como fizeram Brad Pitt, uma adolescente???
Eu ficava olhando aquelas cenas e tentando entender, descobrir aquela mágica. Aqueles atores se transformando de 16 a 80 anos de uma maneira inacreditável. Como se pudéssemos parar o tempo. Como se pudéssemos mandar no tempo. Como se fossemos senhores do tempo e pudéssemos decidir que idade ter.
O cinema nos mostra que até isso é possível, mas usa esse poder justamente para nos mostrar que andar para frente ou andara para traz não faz a menor diferença, partimos e seguimos para o mesmo lugar. Um ótimo lugar que precisamos descobrir.






















